O poder desradicaliza o político
by Luis Cabral
Há algumas semanas, numa entrevista à Rádio Renascença, Pedro Mexia dizia que “nas democracias há uma coisa fatal para os partidos radicais: chegarem ao poder ou perto do poder. Tem havido algumas reportagens sobre câmaras ganhas em França pela Frente Nacional. Com uma ou duas excepções, os políticos da Frente Nacional não sabem muito bem o que fazer quando chegam ao poder. Têm o ‘chip’ da contestação tão enraizado que é um bocadinho como chegar à idade adulta: quando a culpa já não é dos outros o que é que se faz? O poder tende a dissolver o radicalismo”.
Pedro Mexia tem toda a razão. Aliás, estou convencido de que se trata de um fenómeno mais extenso, associado não somente a partidos radicais mas também a partidos da oposição de uma forma mais geral. Note-se, por exemplo, a evolução do discurso do Partido Socialista: à medida que se aproximam as eleições, é notável a evolução dos líderes da oposição: a posição sobre a disciplina orçamental ou sobre o perdão da dívida é muito diferente do que era há 1 ou 2 anos, quando a distância entre o Largo do Rato e o Largo de S Bento era maior.
Entretanto, realizaram-se as eleições na Grécia com o resultado que todos conhecem. Temos aqui mais um teste interessante da teoria do ajustamento resultante da chegada ao poder. Nos últimos anos, o discurso do Syriza apregoou repetidamente o fim da austeridade, a criação de centenas de milhares de empregos, o não pagamento da dívida e muitas outras medidas que são mais fáceis de enunciar do que executar. Prevejo que o discurso de Tsipras se torne substancialmente menos radical e mais “político” e “situacionista”; e que as transformações económicas e sociais sejam de menor monta do que muitos gregos e muitos europeus esperam e desejam.
Oxalá esteja enganado.