Mobilidade social

by Luis Cabral

Graças ao trabalho de Thomas Piketty, muito se tem falado sobre a desigualdade na distribuição do rendimento. Menos se tem falado sobre o problema da mobilidade social. A mobilidade social não é o mesmo que a igualdade na distribuição do rendimento ou da riqueza. Embora exista alguma correlação (maior desigualdade está em média associada a menor mobilidade), a correlação está longe de ser perfeita.

Um livro recente trata do problema da mobilidade segundo uma perspectiva histórica: trata-se de “The Son Also Rises”, da autoria do historiador económico Gregory Clark. O livro de Clark é para a mobilidade social o que o de Piketty é para a desigualdade. Tal como no caso do “Capital no Século XXI”, creio que estamos perante um excelente trabalho de recolha de dados seguido por uma interpretação altamente discutível dos mesmos.

Para além do trocadilho do título (um jogo de palavras com o livro de Hemingway), o trabalho de Clark propõe uma metodologia que não foi até agora aplicada da forma sistemática com que este historiador e os seus colegas o fizeram. A ideia é seguir a população através dos nomes de família. Este tipo de metodologia tem, como é evidente, as suas limitações: por exemplo, há pessoas que mudam de nome; há nomes que são tão comuns que se tornam pouco úteis como medida de sucesso; etc. No entanto, como é costume dizer nos meios académicos, alguns dados é melhor que nenhuns dados.

O facto principal documentado por Clark é fácil de enunciar: em todo um mundo e em todos os séculos, o nível de mobilidade social é muito baixo. Talvez não seja novidade que a mobilidade social em Portugal é baixa (aliás, baixíssima). Para quem tem seguido os escritos de Paul Krugman & Cª, talvez não seja novidade que a mobilidade social nos Estados Unidos é baixa. O que talvez seja mais surpreendente é que o mesmo se verifica em países como a China e a Suécia. Onde quer que tenha nascido e quando quer que tenha nascido, o destino de uma pessoa é largamente determinando pela posição económica e social dos seus bisavós e trisavós.

Porquê? A forma mais comum de colocar esta pergunta é distinguir entre os efeitos dos genes e os efeitos das condições ambientais. As características genéticas de um recém-nascido estão altamente correlacionadas com as dos progenitores (“tem os olhos do pai”, “tem a inteligência da mãe”, etc). No entanto, mesmo que a correlação entre pais e filhos seja 60 por cento (um número generoso, com base nos estudos que têm sido feitos), ao fim de 3 gerações temos uma correlação muito próxima de zero. Ora os dados de Clark sugerem que a correlação se mantém alta mesmo depois de 4 ou 5 gerações.

Claramente, estamos perante um caso em que as condições ambientais assumem um papel preponderante. Para um teórico marxista, o diagnóstico é simples e chama-se luta de classes: uma pessoa não escolhe a classe em que nasce tal como não escolhe o pai que o gerou. Para um político marxista, a solução não é tão simples, mas passa necessariamente por um Estado grande e interveniente que contrarie a dinâmica natural do sistema capitalista.

A evidência empírica, no entanto, não joga muito bem com esta perspectiva. Por exemplo, segundo medidas da OCDE, o grupo dos países com menor mobilidade social (hoje em dia) incluem Portugal, França, Itália, Reino Unido e Estados Unidos; enquanto que os países com maior mobilidade incluem a Suécia, a Noruega, a Austrália e o Canadá. É difícil ajustar o modelo marxista a todas estas observações.

Pessoalmente, creio que para compreender o fenómeno da estagnação social há que resolver o “puzzle” da educação. Para além de ganhar a lotaria e de outras histórias da Cinderela, é do acordo geral que a educação é (hoje em dia) a principal via de mobilidade social. Então por que motivo é que, depois de décadas de ensino público tendencialmente gratuito e tendencialmente universal, depois de milhões e milhões de investimento público em educação, os filhos dos que têm menos educação continuam a obter piores resultados no sistema?

É bom ouvir o que James Heckman (Nobel da Economia) tem a dizer sobre esta questão (tradução livre de um dos muitos artigos sobre o tema): As diferenças provêm de diferenças em habilidades e são diferenças que aparecem já mesmo antes de chegar à escola. As famílias são os principais “produtores” dessas habilidades. As escolas têm muito pouco efeito na redução das desigualdades que já estão presentes nas crianças ao entrar na escola.

A solução para o problema está longe de ser atingida, mas acreditando nos estudos de Heckman somos levados a crer que a solução do problema da mobilidade social passa por uma política de apoio à família, especialmente às famílias com crianças em idade pré-escolar.

Tema para continuar.

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