Inovação

by Luis Cabral

A estratégia do PS para a inovação foi “divulgada”, por assim dizer, numa recente conferência no ISEG. “É para ‘pensar em grande’ que o PS quer o investimento público”, afirma António Costa. A minha primeira reacção é de susto. Pensar em grande é o que vários governos do passado têm feito: a grande Expo, o grande Euro, as grandes auto-estradas para lado nenhum, o grande TGV. Temo que voltemos à mentalidade (falsamente denominada) keynesiana de que a despesa pública resolverá os problemas do País, não só problemas de estabilização macroeconómica mas também problemas de crescimento. “Desta vez vai ser diferente”, deve o pensamento do líder socialista: o maior erro dos políticos é não aprender com os erros dos políticos.

Para demonstrar a tese de Costa, nada melhor que ouvir Mariana Mazzucato, convidada de honra da conferência do ISEG, cuja mensagem é justamente que o Estado tem de assumir a liderança, avançar com o “pensamento visionário”, definir metas e “pensar à grande”. Como demonstração da sua tese, Mazzucato apresenta o exemplo de Silicon Valley: cerca de uma dezena de instituições públicas financiaram aquela que se viria a tornar a capital mundial da tecnologia. Aliás, acrescenta a professora de Sussex, foram dinheiros públicos que permitiram o surgimento do iPhone. (Esta última citação vem de um artigo do Público, não a ouvi directamente de Mazzucato, que conheço e respeito desde há muitos anos. Se ela realmente disse isso, gostaria de ver a cara com que o disse.)

Ninguém discute a importância do Estado como incentivador da investigação e da inovação. O que falta nesta discussão é acrescentar 2 pontos: Primeiro, temos de considerar a produtividade da despesa do Estado em inovação. Eu próprio, por exemplo, beneficiei várias vezes de fundos da National Science Foundation (NSF), uma das instituições que, segundo Mazzucato, foram responsáveis pelo surgimento de Silicon Valley. Oxalá pudesse dizer que o investimento da NSF em mim teve um efeito semelhante à criação do iPhone.

Em segundo lugar — e mais importante — temos de considerar o custo de oportunidade da despesa do Estado em inovação. O dinheiro não nasce nas árvores: os investimentos do Estado que pensa “em grande” são financiados por taxas de imposto “em grande”, incluindo imposto sobre as empresas. Aliás, a ironia do pensamento de Costa vem na frase com que remata o seu discurso sobre inovação: “O erro não está no investimento público feito em ciência e em educação. O erro está na insuficiência do nosso tecido empresarial em aproveitar”. Costa diz duas coisas, mas aparentemente não lhe ocorre que a segunda (falta de tecido empresarial) possa estar relacionada com a primeira (investimento público).

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