O estranho caso do Dr Jekyll e do Sr Hyde

by Luis Cabral

Mais do que nunca, o Partido Socialista atravessa uma fase de conflito interno: não por causa da liderança — esse conflito já passou, por agora — mas sim sobre o discurso económico e político. Tal como o Dr Jekyll e o Sr Hyde, o partido balanceia entre o bom-senso da responsabilidade orçamental e a loucura do radicalismo “Varoufakissiano”.

Pedro Nuno Santos, vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS, defendeu há algumas semanas que Portugal deve ameaçar deixar de pagar a dívida. Manuel Alegre concorda, pois acha “que estamos muito de joelhos e é uma questão de dignidade dar um grito de alma”. Quanto a Mário Soares, já se sabe: “A única maneira de falar com os mercados é dizer-lhes: ‘Não, não pagamos’. Foi o que disse a Argentina e não aconteceu nada”.

Reflectindo a outra face do partido, o socialista Augusto Santos Silva defendeu que “é possível haver uma alternativa política clara sem entrar nas Varoufakisses”. A equipa económica do partido também tenta afastar-se da ala mais radical, preferindo falar pouco — ou simplesmente não falar — sobre a estratégia a adoptar.

Qual é o verdadeiro PS: o Sr Hyde ou o Dr Jekyll?

No que respeita à chamada política de “austeridade”, encontramos a mesma manifestação da doença bipolar que aflige o partido. O actual governo, segundo António Costa, “falhou” porque “não olhou para os problemas com pragmatismo mas sim com radicalismo ideológico”, tudo em nome do “grande objectivo” de redução da dívida. Com o PS, promete ele, será diferente.

Reflectindo a outra “face” do partido, Paulo Trigo Pereira, um dos 12 economistas envolvidos na construção do cenário macroeconómico socialista, insiste na importância de mudar a atitude do partido no que respeita às finanças públicas: o plano não funciona, diz ele, “se o PS mantiver a cultura que teve no passado”. Aliás, para António Costa nem é preciso mudar a cultura, pois o PS “é o partido do rigor” na “gestão da coisa pública” [sic].

Qual é o verdadeiro PS: o Dr Jekyll ou o Sr Hyde?

A resposta é: ambos. Da mesma forma que o Dr Jekyll ou o Sr Hyde ocupam o mesmo corpo, também o PS, partido “pivot” no espectro político português, oscila entre os dois extremos. À noite (isto é, antes da eleições), vemos o PS que promete simultaneamente o fim da “austeridade” e a resolução do problema da dívida (sem entrar muito em pormenores). Durante o dia (isto é, quando chegar a São Bento), veremos o PS transformar-se da mesma forma que Hollande se transformou numa questão de semanas após a eleição em França.

Os partidos e os políticos querem ter confiança e querem ter votos; e a importância relativa dos dois objectivos varia consoante o ciclo político. O fenómeno não é original nem exclusivo do PS, mas manifesta-se de forma particularmente aguda nos dias que correm.

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