O trabalho no Século XXI

by Luis Cabral

Uma das facetas mais revolucionárias da internet é a aproximação da oferta com da procura — por outras palavras, a criação e aperfeiçoamento dos mercados: desde a ebay.com (onde se podem comprar e vender os mais variados produtos), até ao guru.com (onde se podem comprar e vender os mais variados serviços), encontram-se muitos exemplos — e estou certo de que o número aumentará ainda mais.

Como conceito, não há nada de fundamentalmente novo nestes mercados: a Feira da Ladra, que já existe desde o Século XIII, continua juntando vendedores e compradores em Lisboa às Terças e Sábados. O que há de diferente nas plataformas da internet é uma agregação de informação mais eficiente: milhares ou mesmo milhões de pessoas têm acesso aos anúncios de compra e venda, e os motores de pesquisa permitem que o emparelhamento entre comprador e vendedor seja altamente eficiente e rápido.

Isto são excelentes notícias para os consumidores, mas também uma nova oportunidade de negócio do lado da oferta: entre vender quinquilharia acumulada no sótão (ebay.com); fazer pequenos trabalhos de artes gráficas (freelance.com); oferecer serviços de consultoria financeira (guru.com); arrendar um quarto da própria casa (airbnb.com); ou transportar pessoas no próprio carro (uber.com); entre estas e muitas outras possibilidades, o que as plataformas da internet estão permitindo é a emergência daquilo que podemos designar como a “economia do biscate”. No mundo anglo-saxónico fala-se muito da “sharing economy” (economia da partilha), mas o conceito do “biscate” parece-me mais indicado.

A fracção do rendimento pessoal proveniente da “economia do biscate” — nomeadamente num contexto de plataformas electrónicas — tenderá a crescer. Por outras palavras, o emprego por conta própria, mesmo que não correspondendo à totalidade do rendimento, será uma experiência mais generalizada do que tem sido no passado. Por outras palavras, estamos perante uma redefinição dos conceitos de trabalho, emprego e empresa.

Os problemas gerados por esta “admirável economia nova” são múltiplos, entre os quais destaco dois. Primeiro, a empresa tradicional e o emprego tradicional funcionam efectivamente como um mecanismo de seguro: há meses em que tenho mais trabalho e meses em que tenho menos trabalho; mas independentemente destas flutuações tenho um salário garantido ao fim do mês; por outras palavras, o risco do negócio é na maior parte absorvido pelo empregador. Pelo contrário, o trabalhador por conta própria beneficia por não ter patrão, mas vive constantemente na incerteza dos ciclos económicos. Obviamente, nem todos têm “estômago” para esta vida, a não ser que haja mecanismos de seguro que compensem.

O segundo problema da economia centrada no capital humano é que facilmente gera grandes assimetrias. Piketty pode ter escrito sobre o Capital no Século XXI, mas o título mais apropriado para descrever o que se tem passado no Ocidente é realmente o título deste artigo: o Trabalho no Século XXI. A remuneração do talento tem evoluído de forma muito desigual. Por exemplo, em 1968 Paul McCartney tinha um fortuna acumulada de 7 milhões de dólares; em valores de 2008, isso corresponde a aproximadamente 50 milhões de dólares, o que é menos de 20 por cento do que a Madonna ganhou somente nesse ano! Bem sei que isto é um exemplo muito extremo (nem todos somos McCartneys ou Madonnas), mas aponta para um problema real que terá de ser considerado.

Os livros de História Económica do Século XXII incluirão dois capítulos fundamentais: um sobre a Revolução Industrial dos Séculos XVIII-XIX, um sobre a Revolução da Internet no Século XXI. Digo Século XXI porque os efeitos principais das plataformas electrónicas ainda estão por se sentir: o que vimos desde os anos 90 até agora foi apenas um “cheirinho”.

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