Vocabulário e inteligência

by Luis Cabral

Num livro publicado em 1994, “The Bell Curve”, Richard Herrnstein e Charles Murray demonstram que a inteligência (medida por testes QI) se encontra altamente correlacionada com o sucesso económico e social; e argumentam que a correlação não é pura coincidência: pelo contrário, a tese do livro é que as diferenças de inteligência são a principal causa da desigualdade.

O livro causou grande polémica devido a um dos facto estatísticos ali documentados: as diferenças grandes e persistentes nos níveis de QI entre raças diferentes. Em abono dos autores, os resultados foram apresentados com a devida ressalva (“parece-nos que tanto os genes como o ambiente são responsáveis por estas diferenças”): no eterno debate entre “nature” e “nurture”, Herrnstein e Murray decidiram não tomar partido (ou pelo menos não o fizeram de forma clara). No entanto, não faltaram os que se revoltaram — com razão — contra a interpretação “racista” dos resultados dos testes de QI.

Dois factos são inegáveis: (1) os resultados de testes de inteligência (nos Estados Unidos) mostram diferenças significativas entre pessoas de raças diferentes; e (2) as estimativas da correlação entre pais e filhos de características genéticas situam-se à volta de 60 por cento. Posto desta forma, a interpretação “racista” até parece ter cabimento: “está tudo (ou quase tudo) nos genes”.

No entanto, esta é uma perspectiva muito limitada. Um estudo recente de Roland Fryer e Steve Levitt mostra que, entre crianças de 8 meses de idade, as diferenças cognitivas de raça para raça são essencialmente nulas. Isto sugere que algo acontece entre os 8 meses e os 3 anos, idade em que se começam a medir diferenças significativas como as indicadas por Herrnstein e Murray.

Uma possível resposta para este “puzzle” encontra-se nos estudos de Betty Hart e Todd Risley durante os anos 90. Os autores oferece evidência de uma correlação muito significativa entre o vocabulário que as crianças ouvem dos pais e o seu subsequente desempenho escolar. Como sempre, há que distinguir entre correlação e causalidade; mas a acumulação de estudos deste tipo, bem como o seu aperfeiçoamento, sugerem que a qualidade do diálogo entre pais e filhos durante os primeiros anos de vida é crucial.

Acresce que as diferenças na qualidade e quantidade do vocabulário a que as crianças são expostas varia muito consoante o nível económico dos pais. Isto é consistente com o aparecimento de diferenças de QI entre crianças de diferentes estratos sociais e diferentes raças.

De alguma forma, isto “resolve” o “puzzle” da “bell curve”, mas cria outro puzzle: por que motivo as mães e os pais mais pobres e com menores níveis de educação não falam mais com os filhos? Não é certamente por falta de vocabulário: o vocabulário que uma criança de 1 ou 2 anos pode compreender é uma parte muito pequena do vocabulário dos pais — mesmo de uma mãe ou um pai com nível educativo baixo.

Uma possível resposta para este outro “puzzle” é dada por Meredith Rowe. Com base numa série de entrevistas, Rowe argumenta de forma convincente que o principal motivo por que as mães pobres não falam mais com os filhos é que não estão conscientes da importância que isso tem. Pelo contrário, mães de classe média ou alta tendem a obter informações em livros e sites da net e estão mais facilmente a par dos últimos estudos, incluindo a evidência do poder das palavras.

Que tem isto a ver com a economia? Muito. James Heckman e vários dos seus alunos (incluindo o português Pedro Carneiro) têm insistido em dois factos tão simples quanto importantes: (1) o retorno económico do investimento em educação é muito elevado, especialmente durante os primeiros anos; (2) mais do que as escolas, os pais têm uma importância crucial no processo educativo.

Anúncios